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Apresentação do Livro "Do mítico cristo-da-fé ao Jesus histórico".

por Jorge Castelo Branco. (Nov. 2021)


Padre Mário de Oliveira

Por diversas ocasiões referimo-nos a alguém dizendo que dispensa apresentações. Este até poderia ser o caso, pois tenho a certeza que todos vós conhecem muito bem a vida, o pensamento e a obra do Padre Mário de Oliveira.

Acresce que alguém que cumpriu os 84 anos no passado mês de março, que já publicou 52 livros, e cuja vida dava para fazer uma longa metragem maior do que “Cinematón” do Courant, torna desaconselhável tal tarefa, até porque sabemos que o Rui Vaz Pinto tem de fechar às 10h.

Todavia não me lembro de ninguém cuja sua vida esteja intrinsecamente ligada com a sua obra, e cuja obra esteja, por sua vez, tão intrinsecamente ligada com o seu pensamento. Pouca foi a ficção que o Padre Mário produziu. Tudo está experiencial e humanamente conexo.

Portanto, a vida, a obra e o pensamento são, no Padre Mário, uma parte só, una e indivisível. Acresce dizer, coerentemente, e corajosamente una e indivisível.

Costumo dizer que há uma imortalidade conferida a um autor; costumo até, por vezes, não conceber a ausência física de um autor com quem dialogo num livro que escreveu, digamos há 150 anos. No caso do Padre Mário terão de me permitir uma redundância: imortalidade perpétua!, mas a questão que se coloca, legítima é: até que ponto as suas obras terão um impacto que transcende a própria obra, a capacidade de mudar o mundo. Não o sei, mas sei, contudo, que este livro, mais do que todos os outros 51, poderá ter esse desiderato.

Circunstâncias várias colocam-me aqui hoje perante vós para vos apresentar este livro, o 52º do Pe. Mário de Oliveira. Não é a primeira vez que isso acontece e como ainda não fui vaiado nem o Padre Mário, como os sabemos frontal e sem papas na língua, nunca se opôs, eis-me aqui.

Claro que devo admitir a V/benevolente cortesia ou o forte vínculo de cumplicidade entre mim e o Padre Mário que há anos nos une, fortificado pela cumplicidade de 18 edições em conjunto, esta é a 19ª. Sempre defendi que um editor não será a melhor pessoa para apresentar um livro de sua edição. Por muito que tentemos evitar, soamos sempre como uma mãe a falar do filho: por grande avantesma que seja é o mais bonito do mundo! De toda a forma estou bem à vontade: quero que saibam que não concordo com tudo o que o Padre Mário diz, pensa e escreve.

Aliás, andamos ultimamente um pouco de candeias às avessas mas, em boa verdade, a culpa deve ser minha. Desde que me mudei para Viseu empederni-me num perfeito Beirão, teimoso como as pedras, e colidimos frequentemente, como dois titãs: eu por defeito, o padre Mário por feitio.

Todavia, a minha presença aqui justificar-se-ia quanto mais não fosse por uma justificação editorial que se impõe face ao que porventura terão estranhado, o facto de o penúltimo livro o 50º ter sido anunciado nos mesmos moldes em que o de hoje se anuncia, partilhando até parte do título, revelando o seu ineditismo e discorrendo sobre o mesmo princípio orientador: a defesa sustentada da não existência dos 4 Evangelhos canónicos e o Livro Actos dos Apóstolos, mas sim de 4 Evangelhos em 5 Volumes, uma vez que o Evangelho atribuído a Lucas é escrito em dois Volumes, sendo o primeiro a apresentação de um Jesus histórico, filho de Maria e o segundo uma denúncia da fundação de um judeo-cristianismo ou judeo-messianismo nos antípodas de Jesus, transformando-o no mítico messias/cristo ou Jesuscristo, o filho de David.

Aliás o autor, ele próprio, justifica esta nova edição em nota introdutória: "Às leitoras, aos leitores do livro-rascunho, devo um pedido de desculpa e de compreensão. Na altura da sua publicação, tinha-o como versão definitiva. Só depois, graças a certas reacções de pessoas amigas e militantes desta mesma Causa, às quais aqui publicamente agradeço, é que meti de novo mãos ao trabalho e o resultado final e definitivo aqui fica. Felizes, pois, aquelas pessoas que lerem-escutarem esta versão definitiva do Livro. Sem dúvida, muito mais completo e de compreensão bem mais acessível que a versão-rascunho anterior”. (fim de citação)

Uma análise atenta a este livro projecta-nos logo à partida para uma imagem gráfica um pouco diferente do que os últimos livros do Padre Mário nos sugerem e o retorno a uma simbólica iconoclastia que nos remete para edições anteriores e relevantes do autor, algo que traduzido prosaicamente seria: o que de particularmente relevante e

controverso que o Padre Mário tem para nos trazer veste-se de preto e amarelo.

Acima da advertência já referida “versão definitiva do livro 50” título revelador de uma doutrina jesuânica que nos conduz à reflexão de como devemos voltar a Jesus, a um

projecto maiêutico que nos habitará no terceiro-milénio em contraponto de uma adoração mítica de um cristo-da-fé.

Em subtítulo, enfaticamente exclamado, a explicação de uma nova leitura dos evangelhos relevando a expressão “desencriptados”. Aliás o termo desencriptação, dominante

neste frase, merece alguma reflexão. Recentemente mais utilizado ligado a áreas técnicas, é interessante decomposta etimologicamente: apartada do prefixo oposto (des) remete-nos para criptação ou criptografia que por sua vez tem origem na composição das palavras gregas “kriptos” que significa “escondido”, com a palavra “graphia” que todos bem sabemos significa “escrita”. Tudo isto para explicar que o acto assumido do autor no sentido de

“desencriptação”, não sendo propriamente inédito, é perfeitamente legítimo, no caso, sustentador da tese que o livro defende. Não podemos entender os Evangelhos como

textos límpidos; muitas passagens são difíceis de entender e contextualizar. Há inclusive a noção de que nenhuma passagem resulta de uma interpretação particular, daí resultando, por excelente exemplo, o louvável e altruísta reconhecimento do Padre Mário de que a versão definitiva deste livro foi reavaliada e corrigida por acção e reação de amigos e militantes de sua mesma causa.

A criptação da linguagem, muito comum na poesia, por exemplo, onde por vezes a própria linguagem é ocultiva e sugestiva, é apanágio dos textos bíblicos. Daí a legitimidade absoluta da interpretação, porventura polémica do conteúdo dos textos deste livro. A sua legitimidade é incontestável.

Antes de voltar à apresentação do livro, uma pequena nota à parte que acho imprescindível partilhar convosco. O acto de editar é dar voz. Está na base do desenvolvimento da nossa sociedade: é pluralidade, é contribuir com informação para criar opinião, é possibilitar

que em torno e a propósito de um livro reflitamos sobre o mundo que nos rodeia. O livro não nos impõe ideias, conduz-nos até ao melhor caminho, aquele que nós escolhemos, inspirado, inerrante, e suficiente.

Este é um livro polémico, sobretudo porque segue em contramão, segue em contramão como aliás quase todos os livros do Padre Mário seguem e como tal o risco de colisão é iminente. É iminente e desejável, como quase o adivinho a comentar. Em várias ocasiões me referi ao Padre Mário como exemplo de coragem, e não considero coragem seguir em contramão, isso é arrojo. Coragem é não abdicar de princípios, não abdicar daquilo que se

defende, para viver numa humanizada a tranquilizante paz numa divisão fria em Macieira da Lixa, e não em faustoso paço da Sé por não sucumbir à tentação castrante do D.

António Ferreira Gomes. Coragem é expor-se com um sorriso desarmante quando injustiçado e vilipendiado, quando acusado de radical quando confronta os poderes

dominantes fáceis e elegantes de seguir para contento das massas, por uns media inscientes: todos bem sabemos como por vezes a ignorância é arrogante! Coragem é aceitar que se use como arma de arremesso uma pretensa ligação à política quando apenas tomou, no momento certo e na hora certa mas indesejável ao poder reinante, atitudes

em consciência como presbítero de uma igreja que se moldava com o estado contrárias ao que toda a gente queria que se pensasse.

Edito o Padre Mário há 19 edições pois, entre outras, esta é a minha missão. O meu papel é dar a conhecer o pensamento de alguém que muitos temem ouvir. Curioso, ter dado comigo a reparar que ao longo destes muitos anos de proximidade editorial e pessoal com o Padre Mário sempre que ele é referido na comunicação social há uma expressão que o acompanha: Uma Voz Incómoda! Como se não houvesse mais nada para dizer, sucintamente

repetem, à exaustão “Uma Voz Incómoda”. Quando refiro ser o editor do Padre Mário muitas vezes entre outros impropérios lá vem o inevitável “Humm, essa voz incómoda”. Pergunto-me: Incómoda por quê? Incómoda para quem? Incómoda por fugir do normal pensamento?

Incómoda por não cumprir o papel que a generalidade das pessoas espera de um presbítero da Igreja? Incómoda por ter um pensamento fora da caixa, inquietante, revelador,

desafiante? Ou incómoda por se não o conhecer, ou por influência do meio? Teme-se o que não se conhece ou, pior, teme-se o que não se entende. Mais grave ainda é temer o que não se quer conhecer! O meu papel como editor é dar a conhecer. Admito e aceito que não se

concorde. Não posso é tolerar que o demonizem e ostracizem desconhecedora e gratuitamente.

Voltando ao livro.

Repito. Este livro é profunda e urgentemente revelador.

E entenda-se revelador não por conter ou assumir uma verdade absoluta; é revelador por abrir consciências, por pôr-nos a pensar. Apresenta-nos um Jesus histórico

desapontadoramente humano, para muitos, pleno e muito mais próximo de nós, seres-vivos consciência, mais povo visível, carne, e menos translúcido mas tangível deus que nos habita em mistério.

E neste sentido faz contraponto a uma versão da história que insiste milenarmente a ser-nos contada. Mesmo numa sociedade moderna e democrática que reconhece as diferentes interpretações domina o “pluralismo interpretativo predominante” que condiciona e demoniza

novas leituras, pois nada interessa aos vigentes e dominantes cristianismos, católicos ou protestantes, que antecipam o seu fim à luz dos novos tempos. O cristo-da-fé, o cristo davídico, nada mais é que Poder, parte de um sistema opressor e destrutivo, desvinculado e ausente do homem.

Como antes referi este é livro aberto e conciliador; aponta-nos uma leitura, e o autor fá-lo de uma forma criteriosa, fundamentada e alicerçada. Tem o cuidado, por exemplo, de apresentar os textos canónicos com os verbos conjugados no presente e despe-os de toda a fantasiosa,

desnecessária e excessiva eloquência com que os biblistas, ao longo dos tempos, foram acrescentando, conseguindo com isso criar uma ilusão deífica, afastando e deturpando a boa nova original e simples de Jesus de Nazaré, filho de Maria.

O texto do livro desenvolve-se com um título, seguido de um texto com a chave desencriptadora do capítulo que se segue, nas condições que referi antes. Apresentam-se em 5 capítulos pela ordem de Evangelho de Marcos, Evangelho de João, Evangelho de Mateus e os evangelhos de Lucas em 2 volumes.

De notar a extensa e valiosa bibliografia consultada que sustenta boa parte das interpretações. Este é um livro que se anuncia como leitura obrigatória, criador de um novo

pensamento para o 3º milénio e que rompe abertamente com o judaísmo davídico, a sua teologia, o seu Templo, a sua Bíblia, o seu Deus todo-poderoso. Comece por ler,

atentamente, as 68 partes da INTRODUÇÃO GERAL AO LIVRO; elas orientá-lo-ão numa leitura contextualizada do livro.

Entregue-se a uma leitura atenta, crítica, reflectida e sustentada; comente que os seus amigos, familiares, vizinhos. Interrogue-se, perturbe-se, inquiete-se. Acolha as palavras do autor:

“Ousemos seguir e prosseguir Jesus, agora, terceiro milénio adiante!”



Jorge Castelo Branco

Porto, Novembro de 2021

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