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Entrevista a Alberto Pereira

Atualizado: 6 de Out de 2019

Por Ricardo Gil Soeiro


Revista Inefável, nº 9

Editor: Pedro Silva Sena





A voz poética de Alberto Pereira (n.1970) é simultaneamente jubilosa e melancólica, terna e violenta, e é através desse entrelaçamento intrincado que o poeta nos revela o material de que se tece a misteriosa trama da vida. No seu blogspot, significativamente intitulado “Murmúrios da Utopia”, apresenta-se da seguinte forma: “É uma ilha como todos os homens. Escreve para não se evaporar no nevoeiro perpétuo do quotidiano. De quando em vez, aluga quartos na memória para regressar à infância. Gosta de caminhar fora do destino. E tem uma certeza, decepar a ilusão é viver morto.” À boleia do poder da imagem e da imaginação, as suas palavras voam num compasso singular, ardendo num fogo lento, e constroem um alfabeto luminoso que reflecte a dor que a morte representa e a redenção que a presença do amor sempre traduz. Múltiplas são as paisagens interiores que os versos de Alberto Pereira logram transmitir. Basta estar aberto ao desafio do grito frágil que toda a poesia é. Um poeta único com uma obra a descobrir.

1.

RGS: Uma ilha, alguém que escreve para não se evaporar… Quem é, no fundo, Alberto Pereira? Consegue definir-se como poeta ou prefere deixar à solta o mistério de ser um rosto precário? Consegue identificar alguns traços da sua poesia?

AP: Alberto Pereira é alguém que não gosta de guardar o vento na garganta. Deixar as tempestades sair para o mundo é aquilo que pode edificar um homem. Somos um prédio enorme, com habitações que se vão gastando. Um dia resta-nos o piso térreo. Quando chegar esse momento limite, pretendo saber se fiz o caminho para mim mesmo.

Quanto a definir-me como poeta, prefiro deixar à solta o mistério de ser um rosto precário. Todo o acto de criação é incerto. O criador precisa dessa instabilidade para não estagnar. Quero continuar a ser uma voz com pássaros que voam, mesmo quando as árvores já não são suas. Um corpo que não se esqueça de perguntar:

o que é o voo para lá do Outono?

A minha poesia percorre trilhos similares aos de outros poetas; o amor como faca que se veste de paraíso. A condição transitória da eternidade.

Fala da infância, espaço único, onde não se peneiram ciprestes para atingir o sol.

A traição como catedral de sombras que enche o coração de chuva. Fala da velhice, último passo entre as rugas e a terra. E da morte, lugar onde toda a erva se explica.

2.

RGS: Em tom de repto, Henri Michaux escreveu aptamente: “Não é no espelho que devemos observar-nos. Homens, contemplem-se no papel.” Esta afirmação é, em si mesma, uma brilhante tematização da relevância antropológica da literatura. Concorda com ela? O que é a literatura para si? Na sua óptica, será a literatura um auto-retrato contínuo do sujeito que a escreve e do sujeito que a lê?

AP: Em certa medida, sim, porque toda a literatura de forma aberta ou encapsulada, apoia-se nas vivências de quem a escreve. Não é possível caminhar deitando os próprios passos fora. O mundo que nos atravessou vai pairando como uma ave de rapina. E nada dialoga melhor com a paisagem interior que uma folha de papel. Quanto ao sujeito que leva os olhos até ao fim do que o escritor expôs reconhece, por norma, nessas palavras as feridas que o prendem ali.

A literatura é um lugar onde as nódoas têm sinos. É certo que no pináculo do Verão ninguém vê versos rotos. É o tempo que mostra a hierarquia das garras. Sabe-se nesse momento que aparar as unhas à pólvora apenas serviu para pintar biombos nos olhos. E, como disse, Henri Michaux, “não é no espelho que devemos observar-nos”. O diálogo com a imagem exterior é apenas o retrato do hospício que se quer negar. A viagem interior sempre gostou de caminhar por esse arranha-céus que é uma caneta, para declarar no papel que a eternidade procura sempre uma corda no céu.

3.

RGS: Definiu-se como alguém que, por vezes, aluga quartos na memória para regressar à infância. Quão é importante é o passado para si? É um elemento catalisador da sua poesia? Será a infância um lugar perdido? Em que medida é crucial para si a ligação entre o tempo e o esquecimento?

AP: Costumo dizer: a memória, consultório com muros para subirmos à inclinação da eternidade. O passado é o futuro calibrado, o interior polido para viver novos erros. É essencial perceber: os muros são pássaros adiados. Nessa medida, temos de acreditar que podemos repetir as aves.

Na verdade, grande parte da minha poesia assenta no passado, sendo a infância o idílico espaço que nunca se evapora. Local onde se pode regressar, para tirar Agosto da cadeira de rodas.

Quanto à ligação entre tempo e esquecimento, penso que há uma hora em que o perfume se magoa contra a memória. Depois, a fragância perde intensidade, mas, mesmo assim, o tempo não tem o dom de a anular por completo.

4.

RGS: Gostaria que me descrevesse o seu processo de criação literária. Tem algum ritual? Como surge a ideia de escrever um poema? Escreve por medo, por desespero ou por necessidade?

AP: Não tenho qualquer tipo de ritual, há sim uma espécie de chamamento. Não se escreve quando se quer, mas sim quando a voz interior segreda algo. A partir desse momento chega o tema pelo qual avanço, não sabendo onde vou chegar. No final, com todas as palavras alinhadas, por vezes fico surpreendido.

Relativamente à razão porque escrevo, tenho a certeza: é para não me encontrar com o mundo.

5.

RGS: O que representa, no contexto da sua obra, o livro “Amanhecem nas rugas precipícios” (2011)? Sendo um livro fundamental, representará ele uma viragem ou uma continuação na sua dicção poética?

AP: “Amanhecem nas rugas precipícios” representa a continuação da minha dicção poética. Não acredito em viragens repentinas no que se escreve. Há, sim, um processo de amadurecimento, quer do homem, quer do escritor.

Subir o fracasso, pintar erros, embarcar amores com escorbuto, beijar sombras, atar árvores ao peito, proibir varizes aos brinquedos, tudo isso faz parte do puzzle que vai chovendo dentro do corpo. O que muda não é a dicção poética, mas sim a forma como o interior se quer ver explanado no papel. A voz que o faz é a mesma. A forma como é exposta é que apresenta outro padrão.

“Amanhecem nas rugas precipícios” foi um livro muito importante. Nele, além dos temas recorrentes da poesia, viajava uma carga simbólica marcada. Pretendi criar para João Aguardela, que desaparecera prematuramente, uma velhice; embora fictícia, era real dentro de mim. Isso acabou por conduzir a obra para lugares essenciais. Perguntas que chegam tarde ou nunca se fazem.

O que sobra da anatomia do fascínio?

Qual a velocidade de uma amizade ectópica?

Quanto tempo demora o céu a levar um tiro na cabeça?

E as respostas foram surgindo, lâminas a que fechámos as portas.

Se como diz, Eduardo Lourenço, “a poesia é o homem à procura do seu nome”, penso que este livro me aproximou dessa busca.

6.

RGS: No seu primeiro livro – “O áspero hálito do amanhã” (2008), escreveu: “No fim de um estreito carreiro desembarca um mundo perdido. Uma floresta de tábuas eriçadas que se espreguiçam na miséria, dão abrigo aos homens mudos de sonhos” (Poema “Bairro de Lata”) e “Corpos algemados de ternura/que despejam sobre as rugas dos dias/poemas compilados de coragem” (Poema “Mulheres”). Para além de uma dimensão mais explicitamente lírica (e que é inegável), sente-se igualmente na sua poesia uma vertente mais visceral e crítica em relação a injustiças sociais de vária ordem. Concorda? Quão importante para si é esta dimensão ética da literatura?

AP: Concordo. Aprendi muito cedo que as rugas começam na garganta. Sabe, quando é Novembro no perfume e o fútil nos ameaça o corpo, temos de escolher, entre engolir o escuro ou arrancar os preservativos às palavras. Não me importo de cair aos olhos dos outros, o essencial é ser catedral por dentro. Nesses momentos, fica-me sempre uma pergunta em mente: “quantos homens dúbios são precisos para que a pele cheire ao poema perfeito?”.

Quanto à dimensão ética da literatura, permita-me responder com a citação de Henri Michaux, que utilizou numa das perguntas; “Não é no espelho que devemos observar-nos. Homens, contemplem-se no papel”. Isto diz tudo sobre a abrangência que a literatura pode ter na sociedade.

7.

RGS: Como vê o momento actual da poesia portuguesa contemporânea? Quem são os poetas no activo relativamente aos quais sente uma maior afinidade? Quais são as vozes poéticas que mais intensamente o influenciaram no processo da constituição da sua própria voz, o seu idioma poético?

AP: Penso que a poesia portuguesa contemporânea continua a ter grandes valores,

tal como existiram noutros tempos. O que acontece é que o mercado livreiro tem trabalhado para instalar o nevoeiro onde as palavras não tinham sono. Num mundo capitalista, o lucro é o Deus que rege todas as orações e a grande aspiração desse mercado é enviar a poesia para o desemprego. E estão quase a consegui-lo. Basta ir a uma livraria para ver como as obras poéticas são escondidas no canto menos acessível, como se tivessem cometido um crime. Mas, como escreveu Afonso Cruz, no seu mais recente livro, “Jesus Cristo bebia cerveja”, “as árvores que caíram na Primavera, ainda se ouvem no Outono”.

Quanto às vozes poéticas que mais contribuíram para desenhar o meu idioma, refiro: Herberto Helder, Al Berto, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa, Pedro Sena-Lino, Daniel Faria, Luís Miguel Nava, Celan.

Embora seja ingrato apontar nomes relativamente aos poetas no activo, aprecio Jaime Rocha, Maria do Rosário Pedreira, Graça Pires, Rui Lage, Manuel de Freitas.

Há também uma geração de vozes em plena ascensão, como Paulo Tavares, Inês Dias, Ricardo Gil Soeiro, Catarina Nunes de Almeida, Diogo Vaz Pinto, Renata Correia Botelho, Golgona Anghel, entre outros.

8.

RGS: Sei que já está completamente pronto um novo livro… Pode destapar um pouco o véu desta sua nova obra? De que trata estas suas “Respostas a Pablo Neruda”? Qual foi a ideia que esteve na origem do livro?

AP: A ideia que esteve na origem deste novo trabalho foi a obra póstuma de Pablo Neruda, “Livro das Perguntas”. Ao ver ali tantas questões a gritar, pensei, talvez possa falar com este apelo. Fi-lo, respondendo a 17 das inúmeras que ali existiam.

As perguntas são a respiração do caminho que vai chegar. Morrer sem questionar o corpo é encerrar o fundamental numa estátua.

E o que é Deus senão a obra que comporta mais interrogações.

Quando comecei a escrever “Respostas a Pablo Neruda”, não sabia o meu destino. Mas com o tempo foi-se desenhando um sentido, talvez aquele que o poeta pretendia; a hipótese de cada um sentir o batimento cardíaco da sua tempestade. Todo o homem que não fala com o seu Inverno, gera a impossibilidade de chegar ao seu estilo literário. Cada ser é apenas isso, um texto que procura desencalhar o seu estilo.

O objectivo primordial deste livro é responder ao seguinte:

De que estilo literário é um homem que tem o mel cosido à neve?

9.

RGS: Pensando em projectos futuros, o que está a escrever neste momento?

AP: Estou a escrever o 4º livro de poesia, e simultaneamente, a acabar outro de contos, intitulado, “Um assalto faz bem à saúde”.

10.

RGS: Nos últimos anos, a literatura tem perdido terreno na vida colectiva das nossas sociedades actuais… Como vê a situação actual no que diz respeito à poesia? Com apreensão ou indiferença? Qual o lugar da poesia num mundo em crise profunda?

AP: Mesmo num mundo em crise profunda, a arte da poesia é esta; olhar um velho e imaginar nele a criança que consegue destronar o abismo. Saber de que lado da falésia a ascensão grita. Fazer-nos reflectir se a crise não é um santuário zangado com a nossa escuridão. A poesia tem esse ónus, em circunstância alguma abandonar a eternidade.

Quanto ao momento actual da poesia, vejo-o com naturalidade.

Tal como na Economia, os gostos literários obedecem a ciclos. O que hoje parece morrer em breve avista o trono. É preciso não deixar esmorecer a essência das coisas. Beber nódoas sem cair na tentação de as adiar com verniz. Gonçalo M. Tavares escreveu, “um homem é vestido com os próprios dias que já passaram”.

E o que pode fazer a poesia, se despir a sua voz para seguir rebanhos?

11.

RGS: O que anda a ler ultimamente? Lê, sobretudo, poesia? Ou privilegia outros géneros?

AP: Estou a ler “A Boneca de Kokoschka” do Afonso Cruz e também um livro de poesia, “Deitar a língua de fora”, que tem o dom do quase anonimato.

Não privilegio nenhum género literário. É certo, no momento em que se está a instalar em mim um novo projecto poético, aí sim, leio mais poesia.

12.

RGS: No seu último livro, “Amanhecem nas rugas precipícios” (2011), escreve: “Já reparaste que a morte hoje tem pássaros?” O que a morte para si? Como gostaria de morrer?

AP: A morte como já referi, é o lugar onde toda a erva se explica.

Passamos os dias encravados em coisas daninhas, a confundir muros com pássaros, a coleccionar eternidades privadas para sermos ruídos em público. Mas sempre foi assim, o homem, até para atingir abismo, gosta de se sentir obra de arte. Esquecemos que o céu nos guarda sempre uma corda, é apenas uma questão de esperar pela árvore certa.

Há para mim um livro magistral para nos aproximar da morte, “Húmus” de Raúl Brandão.

Relativamente à forma como gostaria de morrer, estou ciente de que já morri algumas vezes. Mas se fala da minha derradeira morte, gostava de estar a pintar um quadro baseado na soberba frase de Paul Celan:

“Era Primavera, e as árvores voaram para os seus pássaros.”

Mas não posso morrer já, é que ainda não sei pintar.

13.

RGS: O que é, para o Alberto Pereira, um poema perfeito?

AP: E Deus perguntou ao poeta, como criaste o mundo?

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