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NO SÓTÃO DE TODAS AS IDADES

(Breves apontamentos sobre Homãe de Nelson Ferraz)

Alberto Pereira

De vez em quando há um relâmpago que me atravessa o corpo. Em 2019, depois de KNK (Luís Filipe Sarmento), Pequeno Roteiro Cego (Levi Condinho), Livro Redondo (Catarina Nunes de Almeida), chegou-me HOMÃE de Nelson Ferraz editado pela Seda Publicações. A obra é um périplo do homem pelo sótão de todas as idades. O autor ao leme dos sismos interiores luta ferozmente por desembarcar orações claras na insânia do tempo. Desde o útero, volumoso apeadeiro de cítaras, até à velhice onde só se pronunciam comboios, há sempre o clima maternal entre dois carris. Nelson Ferraz percorre os hematomas do êxtase com uma enorme elegância: "lavrar montanhas / semear perguntas de vidro. // ah eu tenho a profunda esperança / de colher janelas." ou "na velha casa uma flecha de luz /atravessa o peito da sala. / a sala é um filme acabado e tem o chão estendido / até ao fim."


O poeta faz das imagens uma arte desarmante até nos sentirmos como um animal enclausurado no arco-íris. Depois de atravessarmos esta paisagem semântica, temos uma certeza: "O homem que fala assim do fundo de si é um homem em que a Idade Média se calou há alguns séculos.", como disse Blanchot. HOMÃE de Nelson Ferraz é uma expedição à hostil mandíbula do tempo. Um livro com muitas assoalhadas para a beleza.

Alberto Pereira

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